sábado, 24 de abril de 2010

O Sem-noção

Fato verídico, ano desconhecido:

O preceptor exige que seu residente de Pediatria dê a fatídica notícia de óbito de seu paciente aos pais. O inexperiente residente segue pelo corredor para selar seu papel de carrasco. Chega na ante-sala de espera e se dirige ao casal, que aguardava ansiosamente. Sem saber como introduzir o tema, se desliga do mundo racional e solta a sentença:

- Sinto informar mas o filho de vocês deu uma falecidinha!


Imaginem a cena, ne... Como se fosse assim, deu uma morridinha, mas volta já, depois dos reclames do plin plin. Cada coisa, hein. A reação dos pais também é desconhecida.

Não há nenhum momento no curso de Medicina em que se aprende a lidar com tais situações. Ao menos na grade tradicional teórica. Como dar um diagnóstico de neoplasia maligna (Câncer), óbito ou HIV positivo? Vou além: como fazer com que o marido com alguma DST traga sua esposa para a próxima consulta e possivelmente descubra alguma traição? Ou pior, se a esposa e o marido já se encontram em sua frente... Claro que não há protocolos para isso.

Existe a forma mais clichê dos filmes, com algumas variações: - Fizemos tudo que podíamos (ao nosso alcance) mas ele não resistiu (aguentou).

Existe também o médico que se perde em seu jargão; detalha para os familiares tudo o que foi feito com o obituado com termos que só a equipe dele entenderia, a fim de fugir da notícia. - A vítima chegou assim, ficou assado, evoluiu para sovado e acabou torrado!

Nem comentarei os eufemismos ridículos como: foi para o andar de cima (ou para o telhado); foi para nunca mais voltar; virou energia pura; subiu para o 6º andar (o hospital só tem 5 andares).

Dicas: Ser sincero e saber confortar. Evitar sair correndo após a notícia desagradável. Os familiares devem saber que você fez tudo o que era viável. Lembrar que este momento será gravado no consciente e inconsciente de muitas pessoas. Enfim, a solução é usar o bom senso.

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